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O SUBTEXTO E OS CONTEXTOS DO CORPO-TEXTO

11/1/2020


por Fernanda Nardy Bellicieri

Corpo Texto é um projeto inerentemente em construção.

Uma plataforma que nasce da necessidade, mais que apenas vontade, de expressar-se e expor conteúdo autoral produzido a partir da lida reflexiva com as diferentes linguagens.

O intuito, para além do narcísico trivial que, creio, inerente a todo aquele que se auto reverencia na condição de re-ilustrador do mundo, é também encontrar-se; confrontando-se com a própria imagem, argumentos e ideais. Encarar-se, na própria história, contada metáfora em movimento… Talvez o intuito de escrever-se seja homônimo ao perder-se do comum para reencontrar-se, re-ilustrador do mundo (agora já menos Narciso), artista e sujeito de expressão. Tanto mais legítimo à medida que exposto a um espelho que reflete também a alma.

Essa a minha tal paixão obsessiva pela escrita e suas estranhas entranhas que metem avesso corpo, voz e alma.  

Assim, na esperança de legitimar-me autoral, dessas coisas que, se não tomamos conta, o cotidiano das médias e normalidades rouba ou trancafia, Corpo-Texto surge projeto de vida. Um espaço para existir uma Fernanda, e também conhecê-la… Por vezes desconhecê-la para reconhecê-la… Muito prazer, essa sou eu mesma.

E essa, sim, nas letras e nas falas Corpo Texto, essa sim, sou eu mesma. Às vezes espanto, decepciono, ou felicito; sabendo sempre que, ali, doendo ou chorando, essas são as minhas letras de ilustrar o mundo, dentro e fora. Ah… lançadas ao espelho, como são entranhas estranhas, essas minhas…

E Corpo Texto vem crescendo, ao passo que me despeço, cá e lá, de tom narciso-arte que não é dom, e me envolvo, gradativamente, no confisco de minha vaidade lancinante de tentar exercer uma suposta profissão artista.

Não, Fernanda, ou seja qual for o nome… Artista não é profissão: precisa ser sacerdócio. Só pode ser coisa de amador. Aquele que se rende e se vende à própria alma, às próprias e outras dores e espinhos, e tenta resgatá-las, condensando-os de pincel-caneta- salto-grito-palavra, antes que decantem e que se perca a infinitude que lhe traspassa. Aquele que, de qualquer instantâneo - instante, pode fazer morrer-nascer todas as coisas que, suas ou emprestadas; já suas e suas.

Essa experiência, visceral e fenomenológica, com a expressão via linguagem, acompanha-me desde o sempre de que me conheço. De quando lembro observar, menina de janela automóvel em volta para a casa, vidas tristes de pessoas lá fora, sob viadutos, meio do lixo, sorrisos doentes e um cheiro asfalto, cru, de fim de domingo. De quando lembro tentar atravessar-lhes as janelas e capturar-lhes a alma; o que, por um instante, conseguia.

Então podia voltar, quase incólume, ao trajeto automóvel do carro dos pais, que viajava ao som de Genesis ou qualquer outro tema tão insólito quanto as almas capturadas e, mais tarde, às lições de casa e às botas altas da boneca Barbie.

Voltava Fernanda, como se nem houvesse roubado daqueles que observava janela, o tanto da vida que lhes escapava: pelos poros, olhos e janelas, nas ruas de ida e vinda de percursos de domingo. Mas não queria roubá-los apenas; a menina queria socorrê-los, viver todos e talvez fazê-los nunca precisar morrer. Nem sofrer… A menina era uma alma boa.

E, no fundo, mesmo sem saber o que fazia, guardando os segredos daquela gente que me deixava habitar, tinha certeza de que um dia, talvez não tarde, voltariam para buscar, de mim, seus instantes. E eu menina ou não mais (não se pode medir em tempo essas dívidas) deveria tê-los todos, bem aqui, como meus, em suas dores ou alegrias; deveria oferecer-lhes corpo e texto, minhas nossas palavras. Em cura, homenagem, respeito e compaixão.

Sim, a menina era uma alma boa: sabia que guardaria com carinho, cada sonho perdido ou sorriso desencantado daquela gente que lhe dera a alma à alma. E sabia que voltariam, cedo ou tarde, para buscar a vida sob forma de cena, palavra, dança, lágrima. Tudo novo e redesenhado. E reconheceriam-se na esperança que a menina havia usado para domar cada letra, ponto e nó, na garganta, nas entranhas, nas estranhas maneiras que encontrava de amar a todos aqueles que doando-se em dores e amores, nem percebiam o quanto a faziam crescer. A menina era uma alma boa, um corpo-texto de dar vida a quem quisesse crer que tudo sempre se transforma e liberta.

É dessa arte, de doar-se que falo. E é sem essa que não posso existir, nem Fernanda, nem menina de alma boa. Sem essa arte não me posso permitir.  

Então, só posso entregar essa tal de arte, aqueles de quem emprestei cada instante capturado que me habita, entregando-me a essa espécie de sacerdócio apaixonante de criar e reinventar historias e sê-las todas, como selos meus, como corpo e pre -texto da minha própria existência.

Fernanda? Não mais…
Não me preciso mais… As almas boas são imprecisas.

Essa experiência, visceral e fenomenológica, com a expressão via linguagem, que posteriormente vim a denominar a experiência do Corpo Texto, transformou-se em tese doutoral auto-etnográfica e guia minha pesquisa em âmbito acadêmico. Creio, agora como pesquisadora, que o autoral deva ser reconhecido e valorizado, sobretudo no âmbito de estudos da linguagem. Então como veículo e assunção da produção e da pesquisa autorais, Corpo Texto transformou-se nessa plataforma, que busca incitar à discussão, experimentação, exibição de práticas, reflexões e conceitos que envolvem os processos criativos relacionados a Corpo, Texto e Performance.

Assim, a plataforma Corpo Texto tem como objetivo, primeiramente, ser um espaço às próprias sagacidades como sujeito de expressão e, nesse sentido, incentivar iniciativas correlatas, de outros artistas empreendedores.

Corpo Texto, enquanto empreendimento artístico-cultural, no contexto da indústria criativa, auxilia no desenvolvimento de projetos e ações correlatas às áreas de expertise, sempre com foco em iniciativas independentes, troca de experiência e parcerias.

Áreas de expertise:

  • Produção audiovisual (do argumento à edição)
  • Performance multimídia
  • Escrita literária
  • Ilustração
  • Eventos de natureza artística (sob medida: da roteirização à produção)

Interesse em parceria criativa? Contato: contato@corpotexto.com

E, por hora,  finalizo, descobrindo que Corpo-Texto nasce como o que, talvez e acima de tudo, a menina buscasse quando roubava sonhos ou desesperanças em seus percursos de volta para casa: um pretexto para criar laços em nós. Um subtexto, hoje, expandido à missão de coligar parceiros cuja principal matéria-prima de trabalho, ou dom, seja a insaciável voracidade de exercer-se autoral, um e de muitos…

Finalizo, sempre recomeçando: não é que a menina era, de fato, uma alma boa?









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