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A algum ponto da partida

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Voltar ao lugar de início. Não é esse o instrumento? O que te soa quando notas, já distante, de lá longe, o imenso percorrido? O que te escorre face quando usa os olhos em ré?  O que te sua: lágrima ou esforço do caminho?

Voltar ao lugar de início, e recorrer aos mesmos sons, às músicas de esperança que o instinto proclamava em frases de vitória certa. Sem se… Revolver-se de começos talvez seja a única saída a um próximo futuro. Que humildemente, rendido aos inícios pode-se notar o que foi erro, o que não houve, o que falou alto, o que exagero, o que calou. Retomando fácil até um elogio-si. Sem se… Só si, de um assertivo único que se pode porque de fato se foi. E se que se foi é certo, é de partida que nasce estrada trilhada.

Não é esse o instrumento de melhor ruído? Basta ouvidos inscritos de absurdo, informações desandadas, cortantes, transversais ao caminho proposto início. Basta! Que são frutos bastardos, de medo e poréns; restos estranhos de alheios, estreitos que sufocam e não oferecem passagem. Basta do caos que desmede tua balança e te faz parcial demais, contrário ao ponto de partida. Voltar ao início, quando o improvável não recebia nome desalento. O invisível endossado daquele mais íntimo, sem se, só si, aquele teu que ainda dava-se a não decidir porque já sempre decidido.

Foi dessa fortaleza a escolha pelo ponto de partida: crença de saber convicto que ao fim da estrada, o invisível se faria inteiro toque, sabor-olhos e entrega. A segurança pariu o ponto de partida, essa mesma que hoje o teu mais íntimo vê tormenta, desistida do ventre. A segurança que perdeu cor e fez palidez de uma rima só e já quase nem te lembra a aposta do passo primeiro, ensurdecida ruídos rumores. Tua toda segurança; tola, antes tão guardiã.

E o que se diz disso? Desiste-te, agora que teu ponto de partida já ficou lá atrás? Desiste-te? Que a segurança já anda paralítica e não consegue apoiar novos passos... O que se faz? Desiste-te? Ou faz-se o face a face: encara-se o contra-tempo, a contra-mão que te fez futuro avesso aos brilhos do ponto de partida? Então, o que se faz?

O trilho é o mesmo: ou continuas andando reto, seguindo a regra do teu fracasso, agora que finalmente o encontrou ao olhar para trás; ou resolves retornar e aprender a enxergar da vista do teu ponto inicial. Ali nasce a segurança, uma que jamais paralisou-se atentando atentado de ruídos alheios. Ali nasce, eterna, esperança na tua fonte infinita de encontrar-te. Sem se… Só si.

Ali, bem no ponto de partida, o homem pode, de fato, conhecer-se. E engraçado; esse homem só se conhece quando o ponto de partida fica para trás, talvez já embrenhado em alguma outra não-sua trajetória. Mas ainda sua, se soa bem-vinda a esperança de apagá-la de lugar e retornar ao ponto de partida.

Só se conhece ao olhar em ré, constatando o ocorreu e o esperado, o que correu-lhe ou escorreu-lhe, mãos, o que socorro no caminho. E o homem só se pertence na decisão tomada sobre o que fazer após olhar para trás. Só se conhece um homem em sua resposta: desiste-se ou volta-se ao início, recupera ou resigna, vitorioso ou em linha terminal? Vitorioso em linha terminal…

Esse é o fim de todo começo: reconhecer-se na escolha entre o fim e o recomeço.

Ilustrações: Maria Lúcia Nardy