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A chave da fenda

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Uma chave: é o que me sustenta a mão. Mais que dedos, ossos ou músculo; mais que força motora ou impressões digitais. Uma chave se faz todo espaço da minha palma; toda minha intenção.

E só ela pesa, central. Só a ela se resumem os bens. Um homem cujo tesouro acumulado rendera isso: uma chave. Custou-me dinheiro, insônias, caridades e consciências, dias desesperos e noites sem céu, contemplativos. Custou-me existir sem cor, de cór, cismado das mesmas preocupações: encontrar a tal porta que iniciasse caminho. A porta que me inaugurasse passos. A porta que encaixasse na chave.

Foi o vislumbre da porta, mentirosa, que me fez criar uma vida de busca pela chave. Uma que coubesse encaixe perfeito, e me abrisse braços a um novo mundo. A porta, que devo ter visto em sonho, ou contemplado, metáfora de liberdade. A porta incitou-me a procurar a chave .

E foi preso a ela, ferramenta abre-alas, que consumiram-se os tempos: demorou até que pudesse desvendá-la. Preço alto: aquele que só se pode pagar com a própria carne da experiência acumulada. Preço amadurecido ardido, como não deveria ser.

Experiência deveria tender-se a sutilezas, inspirações. Achei, achava… Mas a chave… tê-la em mãos foi provar da garganta arranhada: tanto tempo para encontrá-la e só depois perceber que, no percurso, havia perdido a visão da porta. Perdera a porta, o vislumbre dos meus tais novos passos. Perdera a porta...

De que adiantaria a chave, então? Experiência deveria-se à descoberta inspiração, não a verdades, assim, tão rasgadas que ditam através de experiência que experiências não servem a nada. Aonde, enfim, escondera-se a porta responsável por meus passos até a chave?

De que haviam valido os tormentos do atrás, se o instrumento abre-portas sulcando-me, tal fenda, assistia-me, agora, um tolo: um homem com uma chave na mão, sem porta alguma a que recorrer. Uma chave que nem se importa.

A experiência deveria ter-me elucidado antes; não no agora, um justo agora em que a chave, pesando toneladas, deveria encaixar-se de perfeitos, aos meus caminhos de porta-aberta.

Mas experiência é assim, não? Só visita após longo tempo… E ainda obriga- me, abrigada de uma parte mais generosa de mim, a agradecer pelo homem cônscio que me tornei. Ainda que desiludido: no peito uma fenda de chave.

E muito cônscio, embora pouco consistente, pergunto: Aonde, enfim, encaixo-me de portas? Como as abro e adentro futuros?

Trancado a espaço aberto, e com uma chave na mão. Olho redor e só há luzes, quase cegam; não impõem direção ou dão conta de apontar sentidos. Só cinco? Parecem pedir mais, algo instinto. Mas instinto? Experiência traz instinto? Ou traz-me extinto? As luzes parecem... E a toda experiência… Essa perece que não sei a que equipará-las, as luzem que me padecem.

Só encaixo na fechadura da porta não aberta que nem se importa da minha chave toneladas na mão, cansada de futuros.

As luzes aparecem… Liberdade? Mas e a porta aberta fechada? Essa era a liberdade! As luzes me perecem toda experiência acumulada e surgidas assim, tal fosse-me nova palavra, novo sentido sem eixo ou direção. Liberdade! Tal fosse-me a porta que nem existiu, escancarada, abraçando-me os braços cansados do peso de chave que procura de caminho.

Uma liberdade clara, que não falava de portas ou mecanismos especiais de descoberta. Mas existia concreta, sem que se precisasse tocá-la. Imprecisa e perfeita, sem ser cimento, osso, ferro ou arame; concreta, preenchendo-me  a fenda no peito esburacado pela chave.

Então era isso descobrir o caminho? Livrar-se das chaves? Então a liberdade da porta aberta não trancava ninguém? Não pedia preço, sacrifício, opinião, cálculo e algoritmo? Era só isso? Desvencilhar do encaixe chave-fechadura e preencher a fenda no peito de uma luz que nem pedia passagem, apenas atravessa-me… Inesperada e inconclusiva como nunca a experiência pode acumulada ser. Olhei para trás e não havia nada: nenhum passo dos milhares quilômetros, anos sem luz, percorridos até um ali. Nada… Nenhum um rascunho do caminho.

E o braço cansado, um abraço, fez-se toda força, atirando longe a chave da fenda de toneladas. Um braço a braço, nem ferro ou concreto, só alívio, alçando aos céus ou qual fosse a metáfora do tempo-espaço, o homem preso à chave. Agora voava. Que não havia portas: almas saltavam janelas, assaltavam qualquer concreto que as pudesse fazer os pés no chão. Por isso não havia passos de seu caminho a um até ali. Nem chave ou fechadura. Desvencilhei da fenda do peito da tal chave, transformando a ilusão das portas em passos não dados:  a liberdade voava e era sem direção.

A que servira a experiência da chave de fenda? Talvez não precisasse descobrir. Os caminhos nem sempre são precisos assim. São apenas necessários.

Ilustração: Maria Lúcia Nardy