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As asas do mar

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Um ser que usava asas, parado frente ao todo mar. Extasiado ou reflexivo; imóvel em seu despertar às águas incalculáveis. Alguém que usava asas (isso estava claro), mas abstinha-se delas, recolhidas em respeito à força água que o absorvia. Olhos inundados de azul, água e horizonte.

Aproximou-se passos rasteiros, acalmados; confiando pés à areia úmida e deixando vazar reclusões. Parecia até mais limpo vestindo, sal e suores, novo-ânimo. Parecia até mais claro que possuía asas. Parecia até mais tê-las, até mais sê-las.

Até mais... a qualquer desvio que acaso tomava-se dele em entãos. O ser que usava asas guardadas teve um peito todo expansão, mesmo ainda mantendo-as recolhidas em respeito-oração à força azul motora que o mar despertava, destituindo-lhe de qualquer mal. O mar protegia, assim, oração-antecipação, dissolvendo sal e terra quaisquer destinos inimigos. O mar sabe dessas coisas de vida e morte.

O ser de asas fechou os olhos, engolindo fragilidade. Como se fazia pequeno frente ao todo mar... Como se fazia livre de adverso, mau trato... Como se fazia cor no mar trato... Respirando em silêncio fundo, fundos do mar, encheu pulmões à novidade que sempre lhe esteve à tona: o mar era todo seu. De prover-lhe, de porto seguro, de lavar aflições. O mar todo seu, ondas e ondas trazidas sopro de vento céu. O mar todo seu, em firmamento, afirmando-o ser de asas e pedindo que voasse.

Obedecendo espelhos d’água, a criatura alargou-se, alastrou-se, tal fosse agradecimento. Engrandeceu -se, de água, sal e ar. Pulmões de mar. Criou-se de um novamente que nem sabia existir. Não resistiu à ousadia das próprias asas: voou.    

E foi como se jamais tivesse sido feito a outro instinto. Voar , voar ... mar alto, respirando a fronte de gotejos sal-sua essência. Mar alto...

E pôde entender-se, estendendo ao limite das asas, a humildade voadora, a grandeza de poder lançá-las. Pôde entender-se reflexo do infinito, irmão do mar, céu e terra molhada;  parte que partia pertinente: a parte que se alçava. Era feito de Sol e mar o peito esgarçado em asas de voar.

Alçando vôos, descobriu-se pássaro, naturalmente alturas. Apreendeu seu o que seu sempre fora: céu. Planando, de rasos à imensidão; sempre fora céu e águas de mar.

Visto o tudo lá embaixo, nem ouviu dizer de suas pegadas, de quando antes intimidava-se pousado, observador. Épocas de quando mar surtia-lhe efeito em separado: ele, um lado, o mar de outro, medo e admiração. Épocas de quando não havia dado atenção as tensões vozes de maré que sopravam-lhe um murmúrio do dom das asas. Maré chamava-o de irmão. Oração. Coração em asas.

A praia apagara-lhe o antes não pássaro. A água dissolvera a areia que marcava-lhe o tempo estagnado que não passara: ele não havia desaprendido de voar, tinha apenas se esquecido. Tinha sido entregue às penas de não possuir-se nas alturas que lhe mereciam. Foi o mar que o descobriu de seu manto protetor, sua mentira de ser em penas reclusas. Foi ao mar o vôo da retomada, a enxaguar-lhe todo o mal. Mal não maldades, que quem tem asas traz um destino que não trai; cedo tarde chega, assim, nas asas de uma brisa mar. O mar enxágua todo mal de si, daquele de asas que se pensa a peso de pés. Que se pesa enterrado areia, podendo, de um bate-peito e um respiro de sal,  voar-se.

O mal que carregava nas costas asas, ainda que nem soubesse o quão sufocar lhe fazia abster-se de tentar-se alçar. Só soube quando lançou-se. Só aí soube que o antes não lhe havia existido. O tempo em que esquecera-se da função das asas desapareceu. A praia não mais guardava seu rastro estagnário, mero observador. A praia aguardava-lhe o lastro renascimento. E do então que se fizera, guardaria-lhe apenas em imagem viva de céu-seu o reflexo voador de nenhum limite.

Ilustrações: Maria Lúcia Nardy