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História das Rosas

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Estive pensando sobre a história das rosas...

em como se morre em três dias.

Às vezes em mais, ou menos; mas nunca além de uma semana.

Não se morre mais ou menos.

Estive pensando em espinhos e em quanto dói tê-los incrustados à superfície.

Espinhos devem ser entranhas, não apenas superficiais.

A dor de fora, no outro, é só reflexo.

Doem mais, muito mais lá dentro, na alma das rosas.

Sabe,

elas só parecem exuberantes

Um segredo?

Rosas perecem.

Não se pode dizer que rosas são belas, elas estão belas.

Não conviva com rosas mais que três dias.

É decepcionante...

Por isso elas cabem solitárias,

não necessitam buquês ou agrados do coletivo.

A beleza das rosas está nessa sua solidão.

Já reparou, que muitas rosas juntas, envasadas, competem?

Morrem mais cedo, até.

É... coisas da natureza, que é sábia,

mas não justa ou feliz.

Rosas deveriam durar para sempre...

Ou não.

Elas são absolutamente substituíveis.

Já se viu, rosa ter nome, identidade ou tal?

Morreu uma,  já outra está lá para repor,

regozijar olhares de almas que não têm espinhos, almas ilesas.

Almas que nem se importarão com o sumiço das rosas mortas, ou a velhice das estragadas.

Pra que notar?

Dia mais, lá está uma outra: nova cor , perfume mais intenso.

Ou não...

Afinal, quem se lembra do perfume das rosas de passado para comparar?

É, verdade que se diz que perfume não se esquece,

mas perfume de rosas deve ser homônimo, anônimo,  deve ser quase tudo igual.

Por isso a rosa recente vai cheirar mais alto, ter as mais belas cores  ...

e os mais francos espinhos.

Porque ela sabe, que dali a três dias, não mais ou menos,

dali a três dias, já não mais existirá.

As rosas nem conhecem o próprio perfume.

Para que notas, se dali a três dias?...

Estive pensando na trajetória das rosas e em quão coloridas se disfarçam.

Seu luto é em cor.

Estive pensando em como morrer em três dias, em cores.

Como morrer sorrindo.

Em um vale onde realmente vale-se de eternidades,

e rosas não são desabotoadas de sua luz natural, nem sua beleza perfumada.

Como se morre em eternidades?

Devia-se  nunca morrer deixando  passado e memória em preto e branco.

Devia-se nunca morrer.

Estive pensando em rosas,

Nós que as matamos?

Talvez elas não devessem caber solitárias,

dignas de seus espinhos incrustados na alma.

Talvez elas devessem viver em bandos, livres, de seus campos indomáveis.

Rosas jamais deveriam ser colhidas ou escolhidas.

Rosas e seu perfume perdem a beleza se pertencerem a alguém.

Elas morrem, dali a três dias...

Lembra, ainda história das rosas?

Agora só se usa plástico.

Sufocá-las é a melhor saída.

Sofrem menos...