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Nocaute

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Um metro e pouco de menino. Muito pouco. A camiseta amarelo-canarinho das chuteiras patriotas. Os pés descalços, sujos, de negro e asfalto. Verde e amarelo eram as cores de um metro e pouco de gente; andando, a passos curtos desdobrados; fazendo-se muito maiores na companhia apressada de adulto.

Mãe, tia, vizinha. Pai, avô, primo; não fossem as saias como índice de presença feminina. Poderia ser qualquer um a carregá-lo pela mão; o importante é o tamanho do menino. Qualquer algo que o fizesse pequeno, ainda menor, cumpriria sua função contextual. Um metro e pouco de gente, diminuída, perdida em caos de multidão e cacos de pessoas desfeitas. O importante é um menino menor, mais circunscrito; para quem quer que fosse observá-lo pudesse reparar a impotência daquela semente.

A cidade é bom cenário, de céus arranhados, sangrando nuvens de veneno, ardendo ao Sol do meio-dia. Ferida exposta. De roncos ruidosos, motores e famintos. De ruas sem espaço vazio e calçadas congestionadas.

Viva a São Paulo em épocas de eleição! Viva e morta. Época de repetir promessas de progressos estacionários; talvez um novo prédio ainda mais alto, um buraco obturado pela nova prefeitura, um novo assassinato.

Um metro e pouco de criança, oscilando: ora cedo demais, ora muito madura. Quase retrato de uma inteira nação, verde, das desculpas de que hoje ainda não é hora; amarela das redimissões de ser tarde demais. Paciência... E o menino multiplicando-se em passos inventados, descalço de chuteiras.

Não era uma criança digna de sorrisos publicitários; mas quem o visse, naquela camiseta surrada de seleção de futebol, lembraria de bola, campo e gol. Não importava ao que fosse remetido o observador, o relevante é o contraste. Jogador de pés descalços. De fato, não servia às verdades publicitárias de retratos otimistas da miséria, de querelas áureas, de vender vitórias. Gol, de quatro e cinco portas; nenhuma apontando a um futuro satisfeito .

O menino parecia ter sido fabricado (perdão pelo termo automático; poderia ter usado “desenhado”, “colocado", “inventado”, mas não faria diferença). O importante aqui, é a subserviência do elemento à sua entidade criadora. Parecia provocadoramente fabricado, saltando aos olhos, de um amarelo vivo, um ínfimo de bandeira nacional trêmula, no concreto cinza de São Paulo.

Quem pudesse vê-lo, ganharia uma partida. O menino existia para ser vencido, decifrado. O menino existia para chutar faces verde-amarelas de otimismo. Partidas, as máscaras de falso contentamento.

Gol !!!! Marcam pontos os que enxergam, apesar de doloridos, a cara no chão. Perde sempre, o menino, em seu chute certeiro, devoto. Perde por existir, significativo e de uma realidade, que mesmo percebida, imutável. A miséria do verde desesperança. Os estúpidos observadores continuam torcendo pela criança de chuteiras, descalça. Insistindo para que ela cresça aos chutes. Pontapés. Não percebem que a cada gol marcado, voto anulado, carro vendido, ou carro roubado (o importante aqui é a generalização de circunstâncias desvinculadas); não percebem que perdem todos: verdes, amarelos, brancos, negros, mulatos. De certo, não entendem a  piada de sorriso publicitário. Um metro e meio de menino, que fossem dois; meninos ou metros (vale aqui é que números, muitos ou poucos, indivíduos ou milhares, são zero, aliados à ignorância).

Um menino verde-amarelo, descalço, vendendo ou chuteiras ou pontapés a quem o observasse. Vendendo, não, distribuindo pontapés.

Quem o visse adorno, até seria remetido à imagem da tal Copa do Mundo, a uma assinatura famosa, a uma marca esportiva. Bom deixar claro que a criança não era digna de outdoor; nem de brincadeira.

Quem o visse contraponto, esse sim, enxergaria além; e o menino estaria cumprindo sua função: marcaria um gol. Talvez em outra história, virasse ladrão de carro, sem preferência por marca. Um menino verde-amarelo, em tempo desregulado, nem pronto, nem em construção. Dizem por aí, em desenvolvimento... A passos apressados, multiplicando-se, para apenas continuar circunscrito.

E a um metro e pouco do menino, irônica, uma piada publicitária: outdoor bem montado sendo retirado pela lei prefeitura, que se diz primar pelo bem estar social; outdoor desses , que levam trabalho, dinheiro, braços e bolsos verde-amarelos, trazendo gigantesco, quase sobrenatural, um logotipo estrangeiro familiar, de cicatriz indelével: uma marca de vender futebol. Deve valer mais que o menino...

O importante aqui, é o chute no estômago.

Ilustrações: Maria Lúcia Nardy