Corpo-Texto

O besouro e o beija-flor

Encontrou-me em casa, num dia de descanso. Improváveis: tanto o local, quanto o descanso. Não se encontra mais ninguém em sua própria casa nesses dias de lugares virtuais. Mais fácil uma mensagem, um hello numa dessas redes sociopatas. Mas encontrou-me… Tinha que acontecer…

Encontrou-me ali, sem qualquer preparo, de mim mesma, nenhuma base ou batom, quase nenhuma máscara. Só o rímeis dos restos de um ontem que o cansaço, comum aqueles que quase não residem de si, impediu-me de tirar. Ou talvez não demaquilar o rímel caro tenha servido a outros propósitos remanescentes: resistir como se olhos outros, nunca dormentes, sempre prontos, acesos, mesmo que mortos.

E encontrou-me assim, em horas de almoço. Dessas refeições que já nem existem mais. Quem almoça em sua própria casa?… Quem tem casa que possa chamar sua? Quase nem mais corpo próprio…

Nem se aconselha comentar com alguém que um dia ou outro se almoça na própria casa. Não é da moda, nem glamouroso. Solitário e barato demais. Coisa de gente que não trabalha ou não tem amigos.

Sim… Talvez não tenha amigos. Talvez não tenhamos… Mas quem os tem?

Mesmo assim ousou encontrar-me ali, de repente, desprevenida, e na minha própria suposta casa. Que ninguém nos visse…

Nem os mais íntimos visitam, nem os pais! Pais e filhos, a essa altura, já não devem ver-se mais. Nas redes virtuais narcísicas, vá lá… Afinal, até amigos fantasmas são bem-vindos em uma e outra lembrança, desde que saudação. Saudade é lugar comum sem selo, só palavra. Pais e filhos não existem mais, são, no máximo, amigos, sem se-lo, sem marca, sem sobrenome.

Mas o tal sujeito, invadiu-me, familiar, em o espaço-tempo real, qual fosse um convidado. Inconveniente, como todo convidado passou a ser. Talvez pior do que incomodar-me o almoço (o que mesmo se comia?) tirou-me atenção da tela-celular, a cela, embaralhando a leitura dos comentários da última festa do fulano, que era o nome da moda de alguma estação. Ou da estação da moda que era do mesmo sobrenome do fulano?… Qual o perfil? Quantas curtidas? Que fulano? Difícil dizer porque amanha ja seria outro e no ontem, talvez o sobrenome tenha sido diverso mas a festa era sempre a mesma.

E mesmo assim, o Fulano-Sicrano era pauta e interessava mais que o almoço domingo, a própria casa, o sobrenome dos pais, o garfo, a faca, a carne, mais que a morte.

E o inoportuno convidado interrompendo, assim, meu almoço em casa que nem lembro se era casa de meu endereço ou se confundia com o endereço da noticia do fulano da moda, e se era minha a carne ou tinha sido comprada de algum endereço virtual que podia ser na esquina de casa ou inscrito www de pagina qualquer. Onde mesmo eu morava?  www? Quem mesmo era?

E que tipo antiquado aquele! Invadindo-me a porra do endereço desconhecido na hora de almoço, no meio do prato; ousando mastigar-me a solidão acomodada. Carne, peixe, frango? Não, não, `aquela altura do domingo já devia ter convertido ao veganismo ou outra religião, assim como o fulano da moda de sobrenome www da noticia da festa do que eu acompanhava atentamente durante o almoço quando o convidado inoportuno decidiu interromper.

Que sujeito impertinente aquele! Não, não o fulano vegano! Esse era… Frágil? Jovem? Estranho? Charmoso? Incrível? Estupido? E tantos outros adjetivos sinalizados abaixo da postagem de sua festa noticiosa que, depois percebi, nem era assinado por veiculo idôneo, era de um www suspeito. Mas existe veiculo idôneo? Na verdade achei o sujeito fulano da festa da notícia do domingo que podia ser dia qualquer que todos eram “I don’t like Mondays”, um tanto… Supérfluo

S-U-P-E-R-F-L-U-O

Digitei logo abaixo da noticia, sentindo-me, talvez, satisfeita. Mais do que com o suposto almoço domingo. O que mesmo eu comia: a carne do sujeito vegano ou a minha?

Juro! Não teria nem sequer percebido o gosto daquelas pensamentos se o desconhecido não tivesse invadido-me o prato de vida rasa. Supérfluo.

No meio de um domingo, um dia que não valia nada, um dia de descanso, de descaso, de sentir-se mal porque “I don’t like mondays” ainda era uma das músicas preferidas mas eu  nem quase sabia entende-la porque tentava enterra-la nos dias inertes, alternados entre excessos de trabalho e consumo de informações. Recessos de vida. I don’t like Mondays e any other day. And any other day o desconhecido me aparece, bug, invadindo o www, a rede, o prato, a porra de um estômago que eu nem sabia mais se tinha. Quis vomitar www o fulano supérfluo, a fabula vegana, a alma celada, sem se-la, quase mesmo um robô.

I don’t like Mondays

But I like, like, like, dislike, dislike, like, dislike, like, dislike, like, love, link, link, luck, link, lick, link, like, link, link, link, link!

Lick, lick, lick, lick!!

O filho da puta atravessou-me o prato, lambendo os restos da minha carne fatiada, cutucando a vida pouca, a vontade escondida de morte, a ideia de falta de sorte alimentada a vicissitudes em rede que sufocavam um sussurro longínquo de um peito que não se quer só, mas não se pode outro em um mundo de sujeitos sujeitos. A tudo. www. aprisionados…

Que diabos de visita era aquela, um bug no meu sistema sem rímel, sem salto, de assalto, no meio do meu prato do meio dia que nem era um prato, talvez só um pedaço de pão inventado integral, da porra dos apelas veganos, amontoado com qualquer carne que  não de outro animal que não eu. A minha carne mastigada, tentando quase ser humano , em seu papel engordurado de vidas e vidas que não havia vivido, nem vencido, nem sentido o tempo passar…

E o cara bem ali… Bug: batendo-me as asas que nunca tive, na cara, na carne, no papel engordurado, supérfluo, que não me servia mais.

Se disser que assustei, minto. No fundo, sorri. Sorri vendo-o tão próximo, na frente da minha tela-cela, dentro do meu prato em asas, nem vegano, neolítico ou antropofágico, invadindo-me o almoço de uma ousadia que já não existe mais. Desinteressado de seu próprio destino: poderia abocanha-lo, destrui-lo, estaquia-lo, mastiga-lo como comumente fazia com os fulanos e suas festas supérfluas nas redes virtuais. Mas ele só queria estar ali no meio do prato, no almoço que não existia mais, na carne cutucada, comigo, invadindo-me: Bug. Batendo asas na carne e lambendo-me as feridas solitárias: não vou , não vou embora nunca mais.

Sorri. Sim, sorri. O sujeito, tão pequeno, intrometido e determinado a estar onde talvez devesse estar: comigo num domingo de “I don’t like monda”, num dia chuvoso e solitário, em que todas as vontades decantam e se esparramam nas expectativas de semanas e semanas que sempre as mesmas, sem fim ou começo, sem espaço, como nas redes virtuais. www e nada. Uma semana que não era semana, de um dia que não era dia, nem noite, ele que nem era ele, era eu com suas asas.

O bicho, um bug, ficou ali, sobre a carne, no meio dia do prato, no meio peito que eu tinha, porque a outra metade, ele havia sequestrado. E só a traria de volta se me libertasse, das redes e celas das segundas e terceiras e quartas tentativas de entender “I don’t like mondays”. Eu deveria pousar usando-lhe as asas e entende-las, todas,  segundas e terças e quartas como a primeira e única oportunidade de voar.

Estávamos vivos, da mesma especie de vida que redes não podem aprisionar.

E ri de mim mesma por ter, um momento, tentado faze-lo entender que éramos diversos. Ri de minha estupidez supérflua, like-deslike, um deslize. O besouro tinha razão: sentíamos, sim, a mesma carne.

Por sorte, quando tentei empurra-lo sutilmente com uma ponta de caneta, dessas que quase nem se usa mais, ele não se foi. Ficou bem ali, no meio do prato, dividindo-me o peito e as paixões. Eu, um alguém em restos de rímel, e mascaras, entre amar e odiar segundas-feiras. Like-dislike. Um domingo de “I dont like mondays” sem nenhuma melodia, embalando-me, talvez, na mais sublime experiencia que um homem e um besouro podem compartilhar: a carne.

Demorei a entender, mas ele sabia, do momento em que bateu asas em minha carne, que não havia outro lugar para se estar, exceto nas horas e horas a observar-me. Um amigo, um irmão.

Tentar afasta-lo com a ponta da caneta era previsível demais - tinha que escreve-lo, só assim ele voaria. E iria em paz, livre por ter-me libertado a carne, ao menos aquele dia. Minha canção preferida não seria mais I don’t like Mondays nos domingos de like-dislike… Talvez Beatles… E quem sabe, em uma outra visita, num outro almoço de domingo, o besouro me ensinasse a cantar Help!.

Voar? Acho que estava começando a aprender…

Ilustrações: Maria Lucia Nardy