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O corredor

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O outro lá, passos à frente.

Talvez duas ou três velocidades mais impetuosas e o alcançaria. Seria trégua ao desejo de vingança, alcançar o adversário postado à frente; e logo, em alguma corrente de vontade , tomar-se em vantagem . Seria trégua à voracidade-vingança, guardada ferida exposta , cutucando cada pé andado durante o percurso. Seria libertar-se, ultrapassar o adversário .

Passo, passo, passo, passo. Alguma pouca velocidade insistindo-se mais, e o ultrapassaria; adversário de quem sempre conhecera somente as costas; sempre colocado à distância, muito além; campeão que jamais me imaginara . Ou melhor , imaginar era o que só fazia ; mas existem diferenças entre sonho e o pé na realidade. Essa chutava-me estômago , cada vez que , deparando meu horizonte , encontrava a figura do adversário , milhas à frente ; muito mais próximo à linha final .

E desde início foi assim que me conheci, um guardador de costas adversárias.Aprender a ater-se combatendo a própria ira, que quase devorava-me esperanças, talvez tenha sido a maior lição. Dessa ira , em princípio , resignada e até doença ,cresceu um abscesso ( acho que o peito ) ; cresceu um coração obsessivo por não-limites. Dessa ira que , pensei , desgovernaria-me ; surgiu o único acesso à estrada de pé na realidade de anseios concretizados . Surgiu a garra ,arranhando-me a embalagem resignada ; fazendo-me explodir m outro , o verdadeiro competidor ; aquele que não importa-se da batalha , mas de si próprio em jogo .

Ilustração: Maria Lúcia Nardy Bellicieri

Esse outro , de quem nem me conhecia . Esse outro , liberto de dominadores ; é esse quem ocupa-me os pés a avista , logo em frente ,duas-três velocidades diferenças , o adversário que sempre dera-me as costas .E esse outro , tão merecidamente eu ,quem vibrará ultrapassagem ; em nome de anos encolhidos e sonhos de vitória que , mesmo esperançosos , desacreditavam de linha final . Afinal , ainda encontravam-se em início percurso , absortos em percalços . Usavam-se em pés descalços , pouco apropriados a longas distâncias. a tal raiva-abscesso , despontada de uma inverdade que dizia-me não merecedor , quem ensinou a calçar-me , pé ante pé , cada passo , um novo uso-treino . Raiva preparatória ; criou-me esse , a poucos espaços de uma virada ; quase-quase à altura do adversário , de quem só se conhecia as costas. O nome pelo qual o conhecia: adversário de costas ; e nada mais sabia dele ,exceto que queria tomar-lhe o lugar . Exceto que a raiva da derrota que criara-me outro , muito mais forte que em ingenuidades de principiante ; a raiva cobrava-me vingança .

Uma e menos velocidades e já estaríamos equiparados. O fulano devia estar cansado, quem nem fez menção de apertar-se em mais pernas; nem acelerou.  Meia velocidade...Menos, menos... Estávamos lado a lado; o adversário já não dava-me mais as costas. Ofereceu-se, em lugar, horizonte que me cabia: ninguém a roubar-me paisagens de futuro; ninguém adiante; fosse versão frente ou verso. Horizonte  descortinava-me vitorioso.

Então a vontade premiada fez-se mais segura, agarrando-me o corpo em único sentido; concretizar-me pés firmes e sonho. Acelerei e, de repente, era eu a dar costas ao adversário; eu, tomando rédeas da competição. E o vigor, que estive certo, de que após  a raiva vingada, diminuiria; o vigor fez-se em ainda maiores velocidades. Senti que voava; o adversário ia ficando para trás; milhas, quilômetros, qualquer unidade de medida. O adversário sumiu-se de meus dias de então . Tive até a impressão de que desistiu do percurso assim que o ultrapassei .

Não havia qualquer sinal ameaça perseguindo-me. Deve ter parado pelo caminho ... Talvez não tenha tido a sorte de adquirir raiva abscesso , capaz de alimentar ganas de vitória futuro . Ou a tenha adquirido e , não sabendo como usá-la, ela o tenha devorado as vontades . Ou ainda , o adversário pode não ter sido capaz de subtrair minhas costas de seus horizontes .

Questão de treinamento ; vai ver , faltava-lhe ...

Talvez não tenha tido a sorte de adquirir raiva abcesso capaz de alimentar ganas de vitória-futuro. Ou talvez tenha adquirido, e não sabendo como usá-la, ela o tenha devorado as vontades. Ou ainda, o adversário pode não ter sido capaz de subtrair minhas costas de seu horizonte. Questão de treinamento; vai ver faltava-lhe...

Tive até vontade de olhar para trás, certificar-me do sumiço do fulano, ou mesmo, caso ele ainda estivesse no caminho, conhecer-lhe a face.

Tive vontade, mas algo me brecou; acho que a vingança, já suficientemente satisfeita. A vista clara de meu horizonte merecia muito mais atenção do que o adversário.

Além do que, o caminho livre fazia-me quase certa de que adversário nunca tinha existido. A sensação de que tinham sido , o tempo todo do percurso, minhas próprias costas fazendo-me frente . Só que as havia interpretado mal : não eram adversárias , nem inimigas ; apenas guiavam-me caminho .

Não tinha existido adversário algum; era eu , o tempo todo , logo ali na frente . Um eu futuro , projetado vitória; instigando-me, o eu presente, a tomar-lhe o lugar . O que eu chamava adversário, era o eu do sonho , esperando que o eu calçado a pés de treinamento , o eu da busca , ultrapassasse-lhe . O que me houve de alegria satisfeita , a que chamei vingança , não foi vingança .

Confraternização : ganhei-me , em horizonte limpo.    

Ilustração: Maria Lúcia Nardy Bellicieri