Corpo-Texto

O milagre de uma lágrima

Tirou o papel do bolso. Uma folha de caderno seca, morta, mal dobrada. Desvencilhou-a dos vincos. Não fossem as linhas azuis claras impressas, que nem pareciam retas, a folha estaria de fato em branco. Linhas tortas, belo começo de uma história; talvez final feliz, talvez ao menos plausível.

Sacou a caneta improvisada, sem tampa. Caneta sem porquê, que lhe serviria como qualquer outra. Sem qualquer característica especial; nada além da marca popular e a escrita esferográfica de deixar borrões. Aquarela. Talvez fosse essa a real função de sua caneta: borrar a realidade transportada em papel. Fazê-la plana e com nuances, fazê-la arte, fazê-la ser.

As primeiras palavras surgindo velozes, em imagens e momentos lembrados, imaginados, subvertidos. Não se sabia. Ele e seus quilos de papel de adivinhar vidas, vontades e temores.

A biblioteca movimentada, até mais do que o normal. Ruído de páginas, passos e pensamentos. Não precisava de muita concentração para viver no papel; até gostava do ir e vir daquelas pessoas; aparentemente ocupadas com seus saberes de razão. Pouco razoáveis; afinal, com o tempo, a memória se perderia e haveria apenas a vaga lembrança de uma tarde de página de livro. O pior: a tal tarde jamais seria registrada, os livros a consumiriam sem pagar direitos, e a cuspiriam fora, não deixando nem mesmo agradecimentos na contra-capa.

Por isso odiava a leitura, apenas enxergava em bons e maus prenúncios, histórias de colorir e contar. Em vezes, escritas, descritas; não importava se desacreditadas ou não. Histórias de ler em livros eram ficção de papel real. Poderiam tocá-las se quisessem; mas entre leitores e enredos, impunha-se a distância imperatriz que separa os sonhos do concreto.

Odiava os livros. Estava ali apenas para poupar algum iludido aprendiz da companhia das idéias letradas e ensinamentos estúpidos. O lugar que ocupava, sentado à beira das enormes estantes, era benfeitoria. Ele os livros não enganavam; talvez outro menos preparado não tivesse a mesma sorte.

As primeiras palavras, entremeadas por pensamentos e criticas; descritivas daquela uma visão, mais e mais próxima, mais e mais nítida: uma lágrima. Quase mil em sua intensidade, quase chorando em coro de almas. No entanto, uma única gota translúcida. Sal e assimetria, recortando uma pele clara, de maçãs rosadas e textura suave. Quase pôde tocar a lágrima, mas teve medo de interrompê-la em seu percurso.

Uma só lágrima.

À medida que a imagem se afastava, pôde ver o rosto triste, mas de uma amargura consciente, uma amargura que não lhe inspirou pena. Inspirou-lhe a pena que, frenética, buscava palavras tradutoras de sentir; palavras que decifrassem o destino de uma lágrima. Pôde vê-la escorrer, em angústia de moça desamparada na busca por semelhantes. Teve vontade, não de secar a lágrima, mas de unir-se a ela em sal e salvações. Queria percorrer o mesmo destino, levar-se à mesma corrente. Queria deixar-se escorrer, ser em lugares nunca percorridos, queria o oposto das bibliotecas de contar mentiras.

Entristeceu-se de um pouco; não o suficiente para brotar-lhe lágrima. Não aquela tão própria, tão justificada. Estava seco. Desejou uma gota, uma única que lhe evitasse o papel comum; mas quem desordenou suas letras foi a tinta grossa, esferográfica. Sua lágrima não passava de tinta grossa esferográfica... Por enquanto já lhe bastava observar um rosto estranho e uma gota de sal alheia, sublime a desenhar percurso. Pensou que se se esforçasse, poderia contar a vida da moça através dos rabiscos invisíveis de lágrima. Milagre.

E a visão que se seguiu, foi ainda mais bela. Uma gota, desmantelando-se em concreto, cal e cimento. Uma única lágrima, contra o cinza áspero, nem cor, nem ausência dela. Uma única lágrima, fazendo brotar uma flor. Vermelho-cereja. Flor, não importando a espécie ou ciência; uma flor nascida de concreto e lágrima. Milágrima...

A imagem findou-se, dando lugar aos pensamentos e críticas, aos passos e mentiras de livraria. Ainda estava atônito. Desenhou, ao final da folha amassada, uma flor. Margarida, mas não tinha certeza; sabia apenas ser vermelha, e a mais viva que já vira. Talvez pelo contraste frio do cimento asfalto, ou fosse lá o que fosse o concreto vislumbrado. A mais viva e mais bela que já vira; de certo, pela força opositora. De fato, devia ser esta a mensagem.

Dobrou o papel novamente. Uma, duas, três vezes; certificando-se de tê-lo dobrado às previsíveis metades, o que o incomodou. Por que, afinal, deixamos retas as coisas que prezamos? Regulares, quase medíocres.

O pensamento fez com que amassasse a folha com a visão anotada. Não queria vê-la às metades. Queria-a transtornada, ilegível, para que apenas ele entendesse a mensagem; apenas ele a guardasse para si. Não queria, de forma alguma, aprisionar o milagre daquela lágrima.

Ilustrações: Maria Lucia Nardy