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O trevo e o Deserto

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A imagem dodeserto nem parecia tão árida assim, mas ávida...

Engraçado comose enxerga melhor o horizonte no deserto, quando se descobre o quão seco efalta de vida contaminam os pés.

E um únicoolfato era pó...

E houve, então,a memória de um mar. Quente e gelo, e a sensação cores. Um Sol que queimavaapenas para aliviar-se depois em águas; um Sol que sal e entrega...

 

Sim, ali do mar-memória,também se via um horizonte...

Só que, assim,contaminado de água, alívio, e sede de vida, nem parecia horizonte, parecialogo ali.

 

Sempre tevevontades de mar, impiedosas marés, o suspiro resgate  de quando se retorna à superfície em um cheirode sal e um ardido nos olhos que não era lágrima; era mergulho no horizonteazul, infinito de tão presente.

 

Lembrava asvontades de mar e caminhava os pés, já insensíveis, na areia deserto. Ele, quemergulhara horizontes de azul, agora só enxergava um sonho distante , lá longe.Muito menos que horizonte.

E não haviacor...

Preferiu-secinza, porque seria doído demais colorir o deserto, respingá-lo aos mesmos tonsde suas marés de memória de mar.

 

Por isso negavao Sol do deserto, o ocre de areia e o azul desconcertante do firmamento: nãoqueria admitir o deserto uma vez tendo experimentado o mar.

Se o deserto nãobrotava, ele desistiria de suas marés.

As águas delembrança eseriam apenas sal.

 

Andou mais unspés... Os passos, nem frios, apenas em preto e branco.

E no trevo deestrada que costurava a última tentativa de ...

Existe sorte?

No trecho maisazul de sua treva branda, que pedia para voltar atrás, a um suposto tempo quenão mais havia... No trecho quase fim, tão distante e horizonte se fazia no seudeserto que era azul e ele insistia em preto e branco... No trecho quase fim,reviveu de um lapso, um lance, os pés de areia da infância.

E era a mesmaareia que mandava no deserto... E eram os mesmos pés...

 

O menino velhoderrubou, desavisado, uma lágrima. Talvez tenha sido o azul insistente ou o Solcausticante, ou o mar de memórias...

Derrubou,  desencantado, uma lágrima, e era o mesmosal... O gosto do mar de um antes era sua alma.

 

E a lágrimapercorreu-lhe o corpo quase morto, nunca tão vivo, fazendo vazar o que elehavia represado na angústia de ter guardado, a chaves, um tempo tesouro que nãovoltava mais, mas que era sempre seu, tal o sal da lágrima era o mesmo sal domar.

 

E sua memória demar, em lágrima salgada, tocou a areia, tal onda que pincela beira-mar, tal sualágrima tocaria de presente as areias de seu deserto. Tal o tempo, ampulhetas,pararia, irrigado, da mistura sal-areia. Lágrima e deserto.

E pôde-pode verem cores, seu deserto... De mesma água-areia que experimentava em dias meninos.

O mesmo sal, omesmo Sol, os mesmos pés.

 

E omenino-velho, e o velho-menino encontraram-se no trevo de estrada em que o olho,cego de passado, lacrimou-se de presente.

E a lágrima demar fez nascer inesperado, no trevo de estrada que costurava o fim do destinodo homem  aos desejos de ressuscitarpassados e aos anseios de morte, um trevo.

Existe sorte?

Um trevo, emquatro folhas, acenando ao velho-menino e ao menino-velho.

Um único trevobrotado de lágrima  e deserto.

 

E o velho meninoe o menino velho que, até então, eram apenas menino e mar e velho sufocado,viveram em um só.

Uma lágrima desal fez brotar diante das promessas do impossível, a vida.

E o velhoentendeu que não era velho por culpa do tempo, mas por não ter perdoado asincríveis memórias de sal. Ele nem percebera que o que seguia desde sempre erao mesmo Sol, aquele do deserto, o mesmo que brincava com o menino. Os mesmos...o Sol e o sal de sua alma.  

 

E o trevo nasceuassim, de uma sorte improvável de um tempo sem métrica, de um instante lucidez.

Sol, sal e areiajá eram a mesma alma do velho-menino.

O trevo que erauma falha na lógica do tempo de fazer tudo passar, trouxe ao velho deserto, omenino de si.

No trevo daestrada, quase o fim, o tempo desistiu-se.

Não havia mais tempo:

O velho sorriu,o menino sorriu e o deserto tornou-se céu como sempre deveria ter sido...

Não havia mais,o tempo.

Só memória ealquimia da alma que era onda, todo o mar.

O menino velhomergulhou como fosse a primeira vez que sentira o azul gelado e o frio calordaquele céu que, seu e sal e Sol, e sul. Mergulhou como aquele menino queentendia o mundo a poucas letras mas que o decifrava em cores, ao passo em quese desvelava o tempo que ele ainda não entendia de fazer escapar tal grãos deareia, que ele nem sabia serem deserto e mar. O menino que ele nem sabia seriao velho que não se saberia amis menino.

O menino velhomergulhou velho menino, e daquele trevo que encruzilhava esses S's de Sol, sal eda própria alma, descobriu-se nem velho nem menino. Era só, somente, do mar...

Ilustração: Maria Lúcia Nardy Bellicieri