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Um aceno. Rabisco de adeus em mãos de quase beijar; não fosse a distância que, mesmo pouca, causava quilômetros. Mãos de se ter, assim, bem próximas, aperto de peito; não em agonia: ajustadas ao peito, em sustentação. Mãos de caminhar conjuntas, não importando quantos fossem os quilômetros ou curvas de estrada. Mãos de tê-las sempre, indissociáveis; tê-las a despeito de distâncias.

Um aceno fotográfico, de braços que carregavam-no impresso, impressões na carne. Luminosidade ímpar, o movimento coreografado dos acenos. Era o que tinham a oferecer com os acenos: todas as melhores intenções.

Em princípio, o menino não entendeu o quadro, não desvendou sorrisos estampados; que se faziam incomuns. Nunca vira bocas sem palavras dizerem tanto; sem som, só silencio. Sem saber-se de razões, quis abraçá-los, um a um, as figuras do cenário de aceno. Ao, fundo um mar... O som de águas antepondo-se a valores de sílabas que não necessitavam ser ditas. Sorrisos e acenos; um poema visual.  

De fundos de mar, um suspiro sem conclusão, do menino observador: "De quem, afinal, aqueles braços e risos irmãos, desejando-lhe toda a boa sorte, das mais puras vontades? Por que aquele mar em retaguarda, guardando esperanças de um próximo encontro? Por onde, um último abraço? ".

O menino nem sabia como, mas sentia tê-los abraçado antes. Não conseguia memórias, mas a certeza de um algo de mar invadia-lhe o peito: já havia beijado-lhes as mãos; abraçado-lhes sorrisos. Conhecia-os daquele cenário mar ao fundo…

Intrigou-se  da mensagem, quis sabê-los ou, ao menos, responder-lhes o amor enviado. Concentrou-se, instantes duradouros, em cada um. Algo de si em cada boca que sorria, na composição que cantava, sonora, liberdade de água irrefreável. Algo de si na paixão daquele adeus conjunto. Concentrou-se, máximo que lhe cabia. Queria acenar-lhes em resposta.

E olhando, assim, próximo o possível, notou que a distância aumentava. Menores e menores tornavam-se os braços em acenos; já quase diluíam-se em água. Se pudesse câmeras fotográficas ou lentes de zoom; se pudesse notar detalhes, veria que, escorrendo sorrisos, mareavam-se lágrimas. Mas ainda assim; ainda, sim, a olhos embaçados, as figuras em aceno podiam enxergar-lhe alma. Podiam inspirá-lo do mesmo amor; e não importava a distância.

Olhando assim, o mais próximo que podia, o menino percebeu que não se tratava de fotografia; que as imagens de um vivo como aquele não se tratavam em laboratório e químicas de revelações. O mais próximo que podia, percebeu que o aceno em conjunto, destinando-lhe toda boa sorte, fazia-se mensagem em espelho. Era através do espelho que ele tentava decifrar as tais almas endereçadas a amar, a um abraço que era todo seu.

Através de um espelho, mais e mais distante do último aceno: espelho retrovisor.    


Olhando assim, percebeu que, por mais se aproximasse tentando reconhecê-los, seria inútil. Algo de percurso dianteiro em velocidade inalienável fazia-o seguir além. Um seu veículo, apontando ao retrovisor de distâncias, memórias já incorporadas à alma; memórias que não mais necessitariam razão ou sílabas. Não mais utilizariam-se de rostos, acenos, sorrisos ou lágrimas. Memórias que já lhe eram a alma, mista das pessoas que amou. Memória apenas mar; que, de todo profundo, ele era aos seus, dos seus. De todo o profundo, um mergulho das almas iguais.

Percebeu-se, desentendido, guiando o veículo de retrovisor, que se afastava. Desapareciam acenos dos braços em que, tinha certeza, já estivera envolto. Percebeu-se guiando a distância entre seu peito e aquelas mãos; seus risos e aquelas lágrimas; seus mares e aqueles rios. Guiando a distância em um percurso que pareceu-lhe natural; pareceu-lhe luz e estrada infinita.

E só àquela distância, que não dizia quilômetros ou outra regra numérica do concebível; só àquela distância de acenos diluídos e fundos de mar, pôde descobrir-se em gratidão; pôde espelhar-se de comuns. Pôde-se o adeus daquele aceno, transpondo solidões conseqüentes, sanando, de mar, qualquer resquício de dor. Só àquela distância, pôde entender-se amado como poucos; pôde ter claro, luz e fotográfico, o privilégio de ter sido o um, o único a entender os laços em perspectiva de retrovisor.

Compreendeu que o mar envolvia os seus em aceno, embrenhando-os num abraço. E essa era a resposta do menino ao amor endereçado. Essa era sua alma em retribuição. O mar zelaria por eles, acalmando-lhes saudade, salgando-lhes felicidade e boa-sorte na estrada cada um. Que cada um também dirigia seus veículos de retrovisores; cada um guardaria memórias de espelhos. E, de certo, o menino estaria, algum dia, acenando-lhes fotografias de momentos só luz; que é o brilho, só brilho, a marcar eternidades. De certo ele se faria memória. Mas já era mais que isso: a partir de então estaria lá, cúmplice de maré em retaguarda às almas, suas iguais.

Só ali, àquela distância, entendeu-se livre; e foi esse, seu primeiro ou último mergulho. Sua indelével visão capaz de eternidade...  E, assim, só, de si e dos seus,  o menino pôde seguir, em paz.

Ilustrações: Maria Lúcia Nardy