Corpo-Texto

Senzala

Outros Episódios

Camisa branca de contrastes. Engomada à mão de mãe. Lambuzada de mãe melosa e cuidados de exagero. Calça do melhor cinto e sapato emprestado de pai. Pés de festa, marrom escuros, engraxados de véspera, com a ajuda do irmão mais novo. Véspera marrom-escura, de um tanto de temor e outros tantos pesadelos.

Primeira entrevista. Soava interrogatório. Suava, sem repostas, desmanche salgado . Mas colo de mãe não era de véspera; sempre amparo, sempre quente; encorajando-o a novos passos. As esperanças de recorte de jornal procuravam candidatos: caçado.

O rapaz, apreensivo aprendiz, sabia que qualquer perseverança lhe despertaria algo de bom . Semente de vitória resguardada. Quem sabe, estrela? Tal os jogadores de futebol, milionárias descobertas. Talvez ele também tivesse um talento inato. Só não tinha certeza se era esse do jornal. Rotulado a classificados. Auxiliar, pedreiro, vendedor, pizzaiolo... Qual seria seu talento?

Existe talento de doutor, mas esse não ia dar mesmo... Varredor ou gari não tinha graça, nem precisava ler para ter esse talento. Não valia a pena. No final, escolheu o dom de vendedor. Meio incerto, mas a escolha não o deixaria sem dom.

As letras do anúncio pediam boa aparência, segundo grau completo, vontade de vencer. A boa aparência foi por conta da mãe; já a escolaridade e vontade de vencer, eram incontestáveis. Era bom de jogo, artilheiro do time do bairro. Então ninguém podia falar que nunca sentira sabor de vitória. As glórias têm apetites semelhantes. Embora beirasse, agora, patamar diferente; afinal, tratava-se de sua carreira, sua profissão.

A mãe, doméstica, orgulhou-se da atitude do filho. “Ao menos estaria procurando serviço digno. A vida não era só bater bola e voar papagaio, não”. Sempre fez questão de ensinar às suas duas crias, o valor do dinheiro e da boa vontade. Via para seu menino futuro parecido com o do filho da patroa. “ Precisava ver as vestes impecáveis , o cabelo penteado, as gotas de perfume importado; logo, logo Hudson chegava lá; ah, chegava ... E coração de mãe não se engana”. O menino e todas as expectativas...

O pai, gari, gostou da idéia do filho, exceto pela goma da camisa e gotas de perfume barato emprestado. Ajuda no orçamento era bem vinda. Mas, que inferno a mulher tinha que incentivar o moleque a andar fantasiado? Exagero era de mundo de engravatado. Roupa de trabalho tinha que ser surrada mesmo. Perfume era coisa de fresco. Talvez para vender fosse diferente; mas trabalho que o pai conhecia, não tinha luxo não.

Em sua estupefação contemplativa, a mãe nem ligava. Hudson estava lindo! Que ele não ligasse para o pai lixeiro; quem mexia com lixo ficava daquele jeito. Hudson que fosse fazer coisa mais interessante...

Aí começavam as discussões e trocas de ofensa. E a mulher, que estava gorda feito porca? Tanto comer ração de rico! E pior, imitava trejeito de madame, vestida com trapo de chão. Logo, logo virava esfregão, e daqueles tamanho jumbo. E o gari finalizava dizendo que rico era bicho de outra espécie, não adiantava se fingir de igual não. Revides e ataques; e a ansiedade de Hudson, flamejante.

Faltava pouco para a entrevista. Hora marcada: dez da manhã. Tomou seu caféleitepãomanteiga; ajeitou cabelo ruim, engoliu pasta de dente. Saiu logo depois do pai alaranjado de uniforme, que apesar do mau humor, desejou-lhe boa sorte. A mãe, tão gorda de aconchego, deu-lhe o último abraço. Um abraço em seu doutor. O possível filho pródigo, recompensa concreta a seus anos dedicados. O irmão mais novo ainda dormia. Deixou-lhe carinhos telepáticos, dividindo as excessivas unções de mãe generosa.

Carteira de identidade, passe de ônibus, duas ou três balas à tira colo, lenço para limpar as lentes dos óculos. Ver melhor uma realidade que não conhecia: trabalho urbano.

O ônibus demorou a passar. Recortes de memória para matar o tempo. Recortes de jornal para morrer qualquer coisa. Qual era mesmo a sua vocação? Ah, sim; vendedor de aparelhos ortopédicos, das oito às dezoito, e salário de trezentos.

No letreiro a caminho: “Vila Formosa”. Não, não era seu destino. Nem seu, nem dos aparelhos ortopédicos, nem dos milhões de desempregados. Qual o seu dom? Todo mundo tem... Até que jogava uma boa bola ...

Letreiro: “Mandaqui”. Nem esse era seu destino. Seu destino de aparelhos ortopédicos. Artilheiro, Hudson, do São Paulo Futebol Clube. Às vezes ouvia arquibancadas em ovação, mais vibrantes que o coração da mãe. Ouvia em seu walkman barato de camelô, do natal passado. Bastava trocar as pilhas e trilha sonora para confeccionar novo sonho de menino. Tornava-se mito futebolístico, criado a horas de pelada de bairro, treinado a falsas ilusões de periferia.

“D. João VI”. Chegou seu destino, antes mesmo que se decidisse entre o dom da bola e os aparelhos ortopédicos. Sabia que estádio era coisa de televisão e fenômenos esportivos, idolatria descartável. Ele mesmo dizia que bom de bola, tinha de penca . Mas lá dentro, tensionava, pulsante, qualquer músculo de desejo. Qualquer Hudson herói.

Naquele dia, quis ser só vendedor; só leria em letras de jornal. Classificados. A imagem da mãe e seu avental pintado a café e faltas na dispensa. Garfo de modos primatas do pai, à mesa de etiquetas coladas de patroa. O sapato engraxado a dedos de irmão caçula. Naquele dia era todas as expectativas das pessoas na edícula de endereço errado. Era só vendedor.

O caminho foi curto, quinze minutos. São Paulo do centro. No recorte: Rua Xavier de Toledo, 363. Dois ou três faróis dali, a passos nem tão largos. Estava adiantado. Orgulhoso de si. Não era Hudson do gramado, mas ingressaria no mercado de trabalho. Passou por vitrine; viu-se espelhado. O pai devia estar no orgulho. Olha só a camisa! A mãe tinha razão, parecia doutor. Prometeu para si mesmo; com o primeiro salário compraria uma pasta, só para ir se acostumando. Não que gostasse de sair gastando por aí; mas a pasta seria ícone, inaugurando nova vida.

Lentes de óculos embaçadas. Sorte ter trazido flanela no bolso. Sinal de pedestres piscando de vermelho. Pensou que o tempo fosse suficiente. Foi impreciso nos passos, e mesmo correndo, precisou recuar. Derrubou os óculos de aniversário passado. Mal pôde tentar recuperá-lo; e os carros, liberados de semáforo verde, avançaram. Deixou os óculos de cacos, mortos de desapontamento na faixa de pedestres.

Foi um carro caro, desse de grã-finos e patroas. Branco, nem de táxi, nem de ambulância. Branco emergência. Emergente da sujeira. A quatro rodas, dois braços e duas pernas. Asfixiante, destruidor. Um carro, de portas e janelas, de preço maior que de edícula; e assento de couro. Do mesmo couro da pasta ícone de Hudson. Só que couro de Hudson não é legitimo; só assento de couro de carro branco. Assinta: nem o cinto nem o sapato. Sinto muito ...

Foi a buzina. Voz de palavras claras, soletradas da arquibancada lotada, em ecos; contaminado até o walkman de natal de Hudson menino:

- “ Volta pra senzala , preto filho da puta! Não enxerga nem farol?”

Só isso, e o resíduo tóxico do escapamento à distancia. A quilômetros, Hudson, a arquibancada vazia, os óculos quebrados de realidade. Tudo na faixa de pedestres, na cara de pedestres.

Ninguém notou. Finge-se muito bem. Talvez todos tivessem concordado com o branco escarro. O carro de couro legítimo. Talvez só Hudson não pertencesse ao mundo colorido. Verde, vermelho, amarelo. Até esqueceu-se das lentes. Melhor ver embaçado, com olhos de mãe e pai gari. Melhor não ver cores.

Decidiu voltar à edícula, envergonhado da blusa alva, dos filhos da patroa, dos pés engraxados. Doutorzinho de piche...

Virou costas aos faróis, à faixa inútil de pedestres, às faces imparciais, aos cacos de vista. Tomou seu destino, a qualquer letreiro. Destino de volta: Senzala. De onde nunca deveria ter saído.    

Ilustrações: Maria Lúcia Nardy