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Sobre os Dentes Compartilhados

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Entraram intrusos, com seus passos de pés distantes, destoantes do azul celeste do cobertor largado canto. Dissonantes de uma aparente calma, gritavam tal fossem monstros, em dentes famintos. Grunhiam por entre os espaços de silêncio.

O ritmo dos passos doloria, machucava os ouvidos frágeis. Frágeis por ouvirem demais, mas não em volume: frágeis do tempo que, em silencio, descama qualquer algo de seus significados; e o faz de tal maneira que a perda não se pode suplantar.

Suportar talvez, jamais suplantar...

A consciência não desfaz a fragilidade. Dentes são frágeis e ilusoriamente cálcio.

Compulsoriamente eternos...

E os passos... e os passos... e os passos. Paulatinamente tomavam conta da casa, cada canto, cada móvel, cada memória que as pesadas cortinas teimavam esconder, tentando preservar o que os cantos já haviam esquecido. Cantos são assim, efêmeros em memória. Basta uma mudança na disposição deste e aquilo outro, uma mesinha de centro, um tapete à direita, a poltrona de ver televisão; e o canto some, reaparece quando decidirem-se dele. Cantos são concreto, mas não duram absolutamente nada... Cantos não gritam como o som dos sapatos de borracha-aço, não reagem tal armas de guerra, tal se fazem dos dentes, ou desfazem-se deles.

Como os cantos, as paredes e a madeira de lei não percebiam? Como se deixavam enganar pelo som dos sapatos? Não, não eram canto: os sapatos eram armas.

Ninguém ouvia? Ninguém percebia?

O pequeno ensurdeceu-se de um ouvido que não tinha: talvez fosse a alma que cantasse triste em tons muito mais altos que os pés sapatos. A alma esquecida em um canto desencanto, de não ser mais canto, ser qualquer outra coisa que não mais casa. A alma do pequeno parecia enorme escapando-lhe em dor pelos ouvidos. E a alma gritava, não mais cantava, um latido triste de despedida dos cantos. De cada canto daquela casa.

Mas os sapatos nem notaram, entraram de salto em assalto aos anos que passaram tão depressa... Quantos anos mesmo? As cortinas não lembravam. O piso de madeira muito menos, em sua mania vaidosa de disfarçar idades. Quanto tempo mesmo? Mas já não importava, porque todo o tempo era aquele infinito agora que parecia, ontem, não teria fim, mas que traiçoeiro, extirpava qualquer lembrança de passado do pequeno cão que não mais latia. O cão que se lembrava de cada canto daquela sala que um dia cantava...

Não percebiam que o cão chorava? Ninguém via? Ninguém ouvia?

E o som dos passos em seu dever de morte, esmagando o resto de memória que o latido, que era choro, tentava resgatar. Ninguém queria ouvir... Ninguém ouvia... E os homens caminhavam pela sala, como homens, a dois pés e alguns palmos do pequeno que chorava latindo, porque não lhe fora dada outra arma, outra voz. E caminhavam a anos luz da esperança do pequeno, que sempre sorria a casa de seus brinquedos e bolinhas mastigadas pelo tempo, porque não lhe fora dada outra alma, não lhe fora dada outra escolha senão a de sempre resistir: aos fins, aos ciclos, às batalhas, às histórias acabadas, aos pisos de madeira submissos, ao silêncio das cortinas. Não lhe fora dada outra alma senão a de colorir os cantos da casa que dias atrás eram alvenaria, e, de um repente, haviam virado só areia. Como podiam? Como podiam esquecer-se do tempo em que a sala vivia criança como se fosse durar para sempre, e havia brincadeira de bolinha e correr quintal –cozinha?

Como podiam esquecer que não existia solidão e desfazer-se da promessa de que tudo duraria para sempre? Como esqueceram de que tudo era um quintal, uma sala, três quartos, a bolinha e uma família? Como deixariam a casa ser tomada por estranhos em seus sapatos apertados que arranhavam a garganta do pequeno de latir seco, latir mudo, latir doído a dor de não mais existir.

O cachorro doía real, mas não era concreto. Sentia como nunca o que jamais ousara: a dor do que não existia mais.

E foi só ao som dos passos dos entrantes intrusos, mais e mais altos, mais e mais ensurdecedores, que pôde perceber que os cantos estavam certos em sua desistência: não havia mais ninguém na sala, há tempos... As brincadeiras de bolinha só habitavam sua insistente inocente memória; porque não lhe fora dada outra escolha senão resistir, senão existir suas cores das recordações que os cantos da casa, sabiamente já haviam deixado para trás. A sala estava vazia... Por quanto tempo? Ou o tempo todo estivera?

Então as pessoas de seu colo, as pessoas que habitavam suas brincadeiras de bolinha já não eram mais as mesmas; haviam humanizado-se... talvez até usassem os mesmos sapatos dos intrusos; afinal foram as pessoas de seu colo que haviam aberto a porta aos inimigos. Os inimigos que em pouco tempo tomariam os cantos da casa, cada um deles e os fariam zelar por suas novas próprias histórias. A sala não mais seria do pequeno, e suas marcas de pata e latidos provavelmente não passariam de sujeira e ruído de um antigamente.

E alguém que nem entendia de afeto ou pertencimento limparia dos veios do piso da madeira de lei, suas patas corredias, seus jogos pega-pega, os brinquedos estragados, o velho cobertor azul turquesa. Tudo seria vendido a preço de pedra: concreto, cimento, as alegrias de uma vida. Uma vida que se compunha das muitas, de todos daquela casa; mas que ao final das contas, reduzira-se a uma única resistência, naquele momento em que os intrusos tomariam sua história e a história dos seus. Não havia madeira de lei, nem pisos ou concretos, tudo não existia mais; desistindo ali, sob as patas já cansadas do pequeno.

Ninguém entedia? Ninguém mais pertencia? O que houve com aqueles que lhe davam os braços às mordidas brincantes, aqueles que lhe entendiam a língua?

Aqueles que lhe compartilhavam os dentes? Compartilhavam a dor de perder sua história?

Que não tentassem convencê-lo de que historias vêm e vão, que inícios outros trariam de volta os cantos da casa... Que não tentassem enfeitiçar de concreto vil, suas memórias de sorrir. Sim, cães sorriem...

E em um último esforço de fazer lembrar que o tempo podia voltar atrás, tal as correrias de quintal, tal a lógica leva e traz das brincadeiras de lançar longe um treco-trique na confiança de que ele sempre traria de volta; na ânsia cega em sua competência para trazer de volta o tempo, a casa, os cantos, os filhos da família, as tardes de parque, os sonos largados no sofá empapuçado de pêlos e patas, o pequeno foi em busca de sua maior arma: a bolinha do Natal, a mais dentada de todas, a mais compartilhada de dentes eternos. Precisava trazer todos de volta!! Por que justo agora teimavam em ser frágeis, em desistir de rugir a dor de perder o tempo que nunca se pode ganhar? Precisava trazê-los de volta aquela sala de sempre estar!

O cão alcançou a bolinha e veio, a dentes certeiros aos pés de homem da casa. Um misto de foça e piedade, uma certeza que precisou fazer-se cega e inocente para tentar recuperar o que só ele entedia: a casa ainda podia existir...

O pequeno latia enquanto tentava desesperadamente oferecer a velha bolinha de dentes ao homem da casa.

Lembra como se joga? Lembra como se joga? Mas o homem da casa parecia ensurdecido pelos passos intrusos que nem mais precisavam cantar, já faziam fazem parte dos cantos da casa que não mais era de seu canto, era de um choro engasgado que não latia mais. Os passos intrusos já haviam tomado lugar das patas correrias. Tanto que os cantos nem se lembravam mais...

Lembra como se joga? Não se joga mais... A casa já havia desistido.

E o homem da casa sorriu, apertando a mão do intruso, antes mesmo de dar bola à bola do cão; como se nem fossem da mesma espécie, como se só houvesse um raso ruído de tudo aquilo que tinham e comum... Ainda tinham?

O embate havia terminado... E então não mais ouviram-se disparos de passos. O intruso havia ganhado, definitivamente.

E o homem da casa sorriu, de uma traição que não tinha dono, não tinha sono, não tinha mais como ser em paz. O homem da casa sorriu, um sorriso de dentes; e o cão pôde ver que não eram mais os mesmos dentes compartilhados. Que sua dor de salvar a casa que já não mais existia era sua só, e tristemente era; jamais seria a mesma das pessoas de seu colo, das pessoas que foram, ao longo do tempo, se transformando em humanos e deixaram das quatro patas e deixaram os dentes de toda dor do tempo passar, do lado de fora da casa que não existia mais. O pequeno desistiu, agarrado de dentes que só ele agora compartilhava com o passado, de uma dor que rasgava o cobertor de seu azul celeste. Sim, cães também choram...

E o homem da casa sorriu, sem querer, da mesma dor que o pequeno sentia...

Dentes compartilhados. Talvez fosse humano demais para lidar com a perda de um passado; humano demais para vencer o tempo. Talvez o intruso fosse o tempo; e os cantos, as salas, os quartos, as pessoas de colo, adultas e humanas, todos eles soubessem, por isso não tentavam lutar. Só o pequeno, mais fiel aos dentes eternos e às bolinhas de brincar, só o pequeno, em sua bravura de concreto, mais que cal e cimento; só o pequeno resistia, quase re-existindo, revestido das paredes da casa que não existiria nunca mais. Cães e homens choram e sorriem do homem e do cão que queria lhe pertencer, dentes compartilhados, a dor anzol azul celeste do cobertor de ninar que jamais acordaria: a casa não existiria nunca mais.