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Sobre os girassóis e o tempo…

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Sobre os girassóis e o tempo…

Giram Sóis, só solitários, giram em vertigem,

Tal a Terra

Tal em Guerra

Tal em fuga ou fogo…

Girassóis queimam como o tempo

Com o tempo...


Sobre os girassóis, pairava o tempo...

De um azul instinto, tão sonho quanto horizontes e preces ao destino.

Uma estrada recortava, quase sem cor, sem graça, o amarelo campo girassol.

A estrada era franca, reta e sem demais sinalizações. Apesar da indicação caminho único, perdia-me em olhares redores, desviando atenções, criando a tensão de um suposto algo a mais, maculando a calma plena da retidão a que se propunha o caminho: apenas seguir em frente. Meu tempo entre os girassóis e o azul, entre chão e firmamento era esperar por devires do que havia, e via, logo ali. Meio dia ou coisa assim.

Sob os girassóis, o tempo.

De terra que tudo e nada permitia. Liberdades giram sóis: um dia após o outro e o azul que era eterno, já não mais seria; e chegaria a noite e cobriria, impune, o amarelo vivo dos girassóis e a chama intensa, meio dia ou coisa.

E ainda assim, escondida de suas cores, a estrada existiria reta, regrada de único sentido... Mesmo no escuro, não se poderia escapar à sentença: não havia desvio de rota.

E eu, atento ao que viria logo ali, desatento à beleza dos girassóis, em um tempo que, talvez, de minha infância, que talvez imaginado, que talvez dado como presente por uma vista de Van Gogh, ou emprestado de tinta barata de calendário folhetim... Cego pela esperança de um horizonte, eu, desatento, caminhava os campos girassóis...

E sobre mim, o tempo anteparo, contando-me os segundos, anunciando desimportado, que um dia a estrada de girassóis escureceria, não importando o quão horizonte parecesse. Um dia, os sóis em giro virariam noite e os campos girassóis seriam apenas uma vaga memória em pincel. Uma pena… um poema, uma lembrança.

Jamais acreditei no tempo... Aparentemente tão inofensivo em suas simpatias tic-tac-tic-tac; em suas desorientações de ponteiros, ora cá ora acolá, ora hora nenhuma. Esse tempo, um piadista... esse tempo gira.... gira sóis... Até que escurece...

De fato, jamais poderia acreditar no tempo... tic tic tic tac tic tic tic tac... dizendo que a estrada fugiria. Como acreditar em um tempo que oferece à mão armada, de mão beijada, quase em bênção, a plenitude de amarelo azul, e um horizonte que inspira todas as encarnações que o arbítrio pode ter, e, ao mesmo tempo, desoferta todas possibilidades usando o limite dos segundos, minutos, da contagem regressiva...  Como crer em um tempo que se oferece livre, quase inconsequente, mas que insiste em passar... O tempo, que o tempo todo fingiu-se meu... Esse tempo que tic tac esvai, sem deixar quase vulto, exceto aqueles que são esforços de memória... Minha? De quem mesmo? Esse tempo preguiçoso, que não faz força pra nada... tic-tac-tic-tac...

Eu jamais poderia creditar-lhe verdades quando ousava sussurrar, quase que por acaso, cruel, que meu tempo nos campos girassóis teria um fim...

Ao mesmo tempo, jamais poderia tê-lo desacreditado. Esse tempo que oferece à mão armada, de mão beijada, a "eternidade enquanto dure "... Esse tempo duro de tão volátil, que me invade de vislumbres de caminhos e, ao mesmo tempo, aterroriza-me em sua veracidade de segundos, vorazes, girando sóis e luas, trazendo luz às trevas e trevas à luz, circulares, atravancadas em tic-tacs, tic-tacs, tic-tacs… O tempo que, sem sequer esconder, é irremediável...

O tempo que, mesmo no mais azul girassol dos dias, é, o tempo todo, um tirano, um algoz. Crueldade inimaginável: declaradamente infinito, o passar do tempo dura para sempre.

Mas há algo sobre o tempo que eu jamais descobriria, não fossem suas atrocidades de passar e ir embora, não fossem seus extremos de maldade, extirpando-me pedaços quase sem dor, só cicatriz. Algo sobre o tempo que me fez, apesar de meus pedaços de carne já mortos, só acesos de memória,  admirá-lo: o tempo passa para que fiquemos...

Descobri, num de repente, quando os girassóis escureceram. E o dia, que me roubava todos os olhares, direções e diversão de possibilidades imaginárias, trouxe apenas uma única treva: uma única direção na estrada, que eu já sabia, era reta e não permitiria outra possibilidade.

Entendi que vivia meu tempo, que nem era meu, às metades, dividido entre possibilidades vislumbradas e desejos do que talvez seria... Vivia meio tempo aqui, e um outro lá horizonte que nem podia enxergar... E nem pude, porque as trevas foram mais ágeis que os girassóis e fizeram-lhes cúmplices enquanto apenas parte de um fim que seria largado em um canto de memória. Um fim que nem teve começo porque eu, mesmo estando nos campos girassóis, jamais olhei-os presentes, jamais reparei sua plena e irreparável beleza.

Era sempre, lá no horizonte que me apontava. No horizonte que nem via, e talvez nem houvesse, apostava meus segundos.... que nem eram meus, eram do tempo... tic-tac tic-tac tic-tac… O tempo todo.

O tempo tinha razão: a estrada teve um fim.

Acho que o tempo tentou, o tempo todo, alertar-me... Talvez o Sol de azul profundo fosse um sinal alerta, um mal estar aos olhos cegos para que se fizessem mais presentes, mais plantados nos campos girassóis... que giram e giram e giram... tic-tac tic-tac tic-tac…

E talvez eu também não tenha culpa de tentar desacreditar dos avisos do tempo; afinal como conviver com a beleza do campo girassol sabendo que a estrada escureceria?

O tempo, o tempo todo, mostrando-me o caminho dado de presente, mas finito. O tempo e seu alerta que soava zombaria... O tempo trapaceiro, anunciando finitudes e gabando-se eterno...

Nem tive como tê-lo em raivas, porque só descobrindo que segundos não voltam atrás, que são sempre os primeiros, somos capazes de um olhar a dentro, uma vista ao que jamais muda. Que tantos quantos forem os sóis, clareiem-escureçam, tantas forem as trevas... o tempo passa tic tac, para que nos tornemos alma... E retornemos...

Colhi, no escuro, sob os dons do tempo e apesar dele, um último girassol que nem mais era um girassol, porque já não podia vê-lo.... Colhi, escolhendo matar o resto de mágoa que guardara, tanto tempo, contra o tempo.

Contra-tempo, entendi que o tempo passava e sempre passaria para que almas girassem os sóis de seu destino, e retornassem, circulares, a descoberta solitária de si mesmas. Para que sementes se tornassem girassóis, e esses, amarelo cor, que se fariam memórias Van Gogh, e museus ou canetas definhadas em gavetas, ou sonhos em letras de fins sem começo...

O tempo sempre passaria imortalizando o que é passageiro.

E eu, um passageiro do tempo, enxerguei o propósito da  estrada, que tinha o fim de ser-me, semeando-me, eternamente imagem e cor, a estrada sem fim. Um atalho que me desvendava alma, mesmo escurecendo-me os olhos. Cego e lúcido, num escuro iluminado de cedo-tarde, azul e amarelo, no canto mais Sol que me guardava… rendido  e exausto, perdoei, a tempo, o tempo.


Ilustrações: Maria Lúcia Nardy