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Sobre quando enterraram a menina

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Não naquela tarde... Não aquela que se fingia de sol e se fugia tão sombria, virando rosto a qualquer sorriso. Não aquela...

Como tudo podia ser pálido cinza e se fundir, fingindo, em colorido? Cinza não é a mistura de todas as cores. Cinza é a desistência de todas.

Como um céu podia ser assim, triste e azul, vivo?

Talvez tudo que seja vivo seja também triste... Ou talvez fosse só mais um pensamento de quem se deleita de Dostoiévski, como se jogo de ideias e palavras, independendo do desalento que implicassem (cinza morte ou cinza cor), fosse divertido tal pique-esconde de criança.Pique-esconde que já nem existe mais...

O que é mesmo pique-esconde? Era.

E tudo o que é vivo é triste, assim com o tudo o que era vivo era triste, porque, assim como tudo o que era ou é vivo, sabe-se de um fim, mesmo que ainda não se saiba.

E tudo que era vivo, um dia, poderia saber de fins, mas não naquele dia, não naquela tarde, não daquele tom.   

A menina havia lhe sorrido instantes antes, e sumido: pique-esconde.

Devia saber que havia algo errado comas pessoas que sorriem daquele largo. Não podem existir no cinza. Só ela podia, não a menina... A menina sorria. Ela não, ela sempre pôde viver no cinza que parecia azul, que parece sol, que perece, que perece... Nem parece que perece...

Se não fosse tão atenta, não teria nem notado que parecer e perecer são quase a mesma palavra. Se não fosse tão atenta, e não brincasse tanto de Dostoiévski, nem teria notado que a menina sorria de um jeito que não poderia sobreviver. Seu instinto de cor era muito mais retinto que o cinza da vida dos que vivem sem nem saber que vivem, sem nem sofrer que morrem.

A menina não poderia ser... Não daquele dia, não daquele sol que fingia que sorria, que fugia e esquivava.O sol que era só um jogo de palavras: era só, só... 

Ilustração: Maria Lúcia Nardy Bellicieri

E o sorriso da menina, de tão largo, deu vontade de chorar. Deu vontade de ser gente de novo, de ser vivo, mas do tipo que se sabe vivo e se sabe também morto, do tipo que não pode viver sol porque é só de suas convicções, do tipo que joga pique-esconde com Dostoiévski e acha tudo muita graça.

O sorriso da menina chorou o mundo porque pareceu tão frágil e intocável, como só o que belo demais pode ser: incansável. Pareceu duraria para sempre, mesmo quando morto, mesmo se nunca vivo ou visto. O sorriso da menina era muito mais luz do que o sol que ela conhecia.

E nesse momento soube, quando os olhos da menina sorriram radiantes, nesse momento teve a certeza dos vivos que são mortos: a menina deixaria de existir.

E foi em menos de um segundo, antes mesmo que o Sol se sentisse incomodado dos olhos vivos da menina; foi menos um segundo... E toda vida que já se sabia morte, todo triste de que já recobria a sorte que não passa de acaso... Um segundo e toda a vida, ocaso: um de um segundo, e a menina se foi, anoitecendo, deixando o rastro de um sorriso como nunca se vira, como nunca se permitia em uma tarde cinza que se fingia colorida.  

Será que sorriso desistiu? Era mesmo um sorriso ou só resistia retrato, vertigem de um tempo?

E porque insistia em não mais deixar-lhe a memória? Dela que não era e nunca seria a menina; dela que cria e não cria mais na vida; dela que não era mais capaz de criar nada, cega sob o jugo de um sorriso que não mais existia, e talvez nunca tivesse existido.

Não, ela jamais seria capaz de ter imaginado nada assim tão luz. Não ela, acostumada ao sol que fingia que sorria; não ela, que jamais havia notado a menina.

Há quanto? Há quanto tempo ela devia estar ali, tentando e tentando que lhe enxergassem o sorriso? Por que justamente quando havia entendido que o resto do cenário era apenas simulacro e vaidade; porque justo quando havia de deixar-se deixar de ser do cinza que finge mistura de todas as cores? Por que justamente quando a menina lhe sorria o sol que nunca existiu e nem existiria... Por que justamente quando deram-se olhou nos olhos, ela desapareceu?

Por que quando olhou-se nos olhos, menina, desapareceu?

Não podia ser de propósito: a menina jamais seria cúmplice da mentira dos quadros de viver morrendo. A menina era muita luz para que se deixasse envolver pelo descolorir. A menina não a enganaria.

Mas então, por que tão cedo? E por que tão tarde para deixar-se apagar da memória?

Ela jamais conseguiria esquecer o sorriso; contrastava-lhe rasgando um seu peito meio ferido, meio cansado devida e morte, meio tempo, meio mudo; refletia um seu mundo de fragilidades e não, como só o que é belo pode ser. Uma fragilidade carne, estúpida, breve, mas cortante, visceral, porque viva e porque morta.

Fragilidades existem a todas as naturezas, como aos sóis que são desatentos a seu brilho, como aos brilhos que se fazem sóis, como aos sós que se fazem trilho, como aos trilhos que construímos sós... Como tudo que é e já não mais: um segundo e ocaso... O caso do perene ocaso da humanidade, do incessante amanhecer para anoitecer, e para amanhecer e para anoitecer, e sol e cinza e sol e cinza e sol e cinza. Vida e morte.

 Então mesmo frágil, o sorriso era para sempre! Por isso não poderia esquecê-lo, por isso  não podia ser humano, não podia ser dela, não podia ser ela a menina dos olhos no espelho.

Por isso ela-menina teve que partir, para ficar para sempre, presente, nos instantes em que o ocaso desistisse de insistir, e ela pudesse amanhecer do sol-sorriso, mesmo que logo fosse descoberta e recoberta novamente de cinza, como pique-esconde fosse jogo de palavras Dostoiévski, como poesia fosse amarelinha e bolha de sabão, que nem mas existiam, talvez nunca o tivessem, ou talvez resistissem para sempre... Como tudo que é vivo é morto, como tudo que é morto sempre se fará vivo.

A menina teve que partir, prantos e sorrisos, sóis e ocasos, para que nunca mais partisse...